As disciplinas introdutórias de laboratório de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) passaram por uma ampla reformulação nos últimos anos. O processo, desenvolvido por um grupo de docentes do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), teve início no começo de 2020 e resultou em uma nova abordagem para o ensino experimental, implementada gradualmente entre 2023 e 2025.

O Prof. Luís Eduardo E. de Araujo, um dos autores do artigo, explica: “Os coordenadores das disciplinas de laboratório do Básico vinham já há algum tempo discutindo informalmente uma reforma nos laboratórios de ensino e aos poucos implementando pequenas mudanças. Essas mudanças eram, porém, limitadas pelas ementas das disciplinas, que ditavam aos laboratórios de ensino o papel de reforço de conceitos de Física Teórica. Em 2020, a Coordenadoria de Graduação criou um grupo de trabalho (GT) para repensar as disciplinas de laboratório e propor um novo projeto pedagógico para as disciplinas tendo como foco o desenvolvimento de habilidades experimentais. A proposta do GT foi aprovada pela Comissão de Graduação e, posteriormente, pela Congregação do IFGW em agosto de 2022.”

Essa proposta de reformulação e os princípios que a orientaram foram apresentados recentemente em um artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física.

A reformulação partiu de uma reflexão sobre o próprio papel das disciplinas experimentais na formação universitária. Tradicionalmente, laboratórios introdutórios de Física são frequentemente organizados com o objetivo principal de reforçar conceitos e leis já apresentados nas disciplinas teóricas, como as Leis de Newton, a Lei de Hooke ou a Lei de Ohm.

A nova proposta adotada no IFGW busca ampliar essa perspectiva. O laboratório passa a ser entendido como um ambiente dedicado, principalmente, ao desenvolvimento de habilidades experimentais, incluindo a aquisição e o registro de dados, sua representação gráfica, a análise e a interpretação de resultados e outras competências fundamentais para a atividade científica e profissional.

“Precisamos pensar continuamente sobre a formação dos estudantes e sobre como aproveitar melhor o tempo e a dedicação que eles investem em sua formação. No laboratório, isso significa criar oportunidades para que desenvolvam habilidades experimentais que serão importantes ao longo de suas vidas profissionais”, afirma o professor Luiz Fernando Zagonel, um dos autores do trabalho.

Uma transformação baseada em evidências

A proposta de reformulação não surgiu apenas da experiência dos docentes envolvidos. Durante os primeiros anos de trabalho, o grupo realizou um levantamento da literatura especializada em ensino de Física e analisou propostas e experiências desenvolvidas em universidades estrangeiras.

Esse processo permitiu identificar uma mudança importante na forma como o ensino experimental vem sendo discutido internacionalmente. A pesquisa em ensino de Física tem mostrado que simplesmente reproduzir experimentos para confirmar resultados já conhecidos ou leis previamente apresentadas em sala de aula não explora plenamente o potencial pedagógico de um laboratório.

Com base nessas evidências, o grupo elaborou recomendações para a renovação das disciplinas e desenvolveu uma proposta pedagógica centrada no desenvolvimento de habilidades experimentais. A implementação exigiu, além da criação e adaptação de atividades, um amplo processo de discussão entre os docentes sobre os objetivos e o papel das disciplinas laboratoriais na formação dos estudantes.

Atualmente, as novas disciplinas estão plenamente implementadas e atendem aproximadamente 1.000 estudantes por semestre, distribuídos por diversos cursos de graduação da Unicamp. O retorno qualitativo dos estudantes e dos docentes que ministram as disciplinas tem sido bastante positivo.

Um processo em contínua evolução

A transformação dos laboratórios introdutórios representa uma etapa importante, mas não necessariamente o ponto final do processo de renovação do ensino experimental no IFGW. A experiência também abre espaço para discussões mais amplas sobre o currículo dos cursos de graduação.

Novas reflexões sobre a formação dos estudantes poderão indicar a necessidade de aprimoramentos adicionais nos currículos de graduação, em particular no curso de Bacharelado em Física. Entre as possibilidades está a inclusão de novas disciplinas experimentais que permitam ampliar e aprofundar, ao longo da formação universitária, o desenvolvimento de competências práticas e experimentais.

Dessa forma, a experiência desenvolvida no IFGW aponta para uma visão de currículo em constante evolução, capaz de incorporar novos conhecimentos, práticas pedagógicas e demandas associadas à formação dos futuros profissionais.

O artigo “Transformando os laboratórios introdutórios de Física da Unicamp” é assinado por Luís E. E. de Araujo, Felippe A. S. Barbosa, Pierre-Louis de Assis, Sandro G. de Oliveira, Christoph Deneke, Guilherme S. Marcom e Luiz Fernando Zagonel e foi publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física.

DOI: 10.1590/1806-9126-RBEF-2025-0548

https://www.scielo.br/j/rbef/a/SByh5BTyFzb44dFGjb6cyqP/?lang=pt